Movimento em revista Número 18
Sidi Larbi Cherkaoui & Toneelhuis - [Myth] - foto: Koen Broos

Documentos

::   29.04.2004


Carta do Dia Internacional da Dança  

Em celebração ao Dia Internacional da Dança, representantes da classe de dança de Pernambuco vêm, por meio deste documento, alertar aos órgãos públicos sobre a necessidade de implementação de políticas para profissionalização do setor. 

A dança tem importante participação na construção da história do patrimônio cultural do estado e sua capital. Há mais de um século que as danças populares fazem parte do cotidiano da população, e nos últimos trinta anos outros segmentos de dança surgiram, proliferando a prática no Estado. 

Na década de 70 alguns grupos de dança começaram a aplicar uma prática mais profissional no fazer artístico, buscando estrutura logística e financeira para o desenvolvimento das suas pesquisas em dança. Como exemplo temos o Balé Armorial do Nordeste (1976-1978) e o Balé Popular do Recife (1977), que na época tiveram apoio direto de órgãos públicos. Esse apoio foi imprescindível para dar os primeiros passos a caminho de uma profissionalização. O Balé Armorial do Nordeste levou o nome de Recife por outros Estados do Brasil, na época em que atuou. O Balé Popular do Recife até hoje é referência no Brasil e no exterior como cartão postal de Pernambuco. 

Atualmente o número de grupos de dança que surgiram no estado e de profissionais que trabalham na área se proliferou. Este fato pode ser constatado na quantidade de bailarinos, coreógrafos, técnicos, produtores, professores, e outros agentes culturais que são envolvidos durante a realização dos festivais e eventos da dança local. 

Os festivais e eventos são iniciativas importantes para a classe de dança local, mas atualmente outras ações são necessárias para que o segmento se desenvolva e possa se consolidar como um mercado. Os Sistemas de Incentivo à Cultura também estimulam a produção local mas não  oferecem estrutura ideal para o fazer artístico na área. 

Para que haja uma real profissionalização é preciso investir em políticas públicas a curto, médio e longo prazo. 

A curto prazo, poderia ser pensada em uma política de apoio direto para a manutenção dos grupos de dança atuantes na cidade, disponibilizando uma parte do orçamento para esse fim. Essa iniciativa já é vigente no Rio de Janeiro, através do Instituto Municipal de Arte e Cultura – RIO ARTE, que atualmente subsidia 13 grupos de dança da cidade. A iniciativa já existe há dez anos, e começou subsidiando apenas cinco grupos de dança. 

Esse tipo de investimento é necessário para a continuidade do trabalho de dança em Recife. Pois como o bailarino utiliza seu próprio corpo como objeto artístico é imprescindível que ele tenha uma rotina diária de trabalho, tanto para manter a forma física como para pesquisar sua dança. Esse trabalho diário só é possível se os bailarinos recebem salários pelo tempo gasto em ensaio. Sem uma renda fixa, esses profissionais tendem a trabalhar em outras áreas para se sustentar financeiramente e passam executar sua arte em horários vagos. Essa prática dificulta a qualidade dos trabalhos desenvolvidos em dança. 

A implantação de uma política pública para o subsídio de grupos de dança contribui para: 

  1. A inserção dos artistas da área no mercado profissional, gerando a contribuição de impostos para os governos; 
  2. A auto sustentação dos grupos que participaram do projeto, pois quando estruturados se torna mais viável conseguirem patrocínios privados; 
  3. A dinamização do mercado cultural surgindo novos grupos na cidade; 
  4. A intensificação na formação de bailarinos da cidade, movimentando o mercado das academias de dança; 
  5. O aprimoramento da qualidade dos espetáculos locais, contribuindo para a formação de público.

 

Outra sugestão de política pública a ser elaborada, a longo prazo, seria a implantação de um curso superior de dança, que forme professores, pesquisadores, técnicos e produtores da área. Não só Pernambuco, como a região Nordeste é carente de um curso especializado na área, para qualificar profissionais e ampliar o mercado cultural. A implantação de um curso superior especializado em dança contribui para: 

  1. A qualidade na formação de artistas da cidade; 
  2. A qualidade no ensino de dança local; 
  3. A ampliação do mercado de trabalho; 
  4. A criação de um segundo curso em dança no Nordeste, que até então só existe na Bahia;
  5. A formação pesquisadores especializados na área de dança, disseminando a cultura local para outros Estados.

 

Por fim, ressalta-se o dever que os órgãos públicos têm de garantir a todos o pleno exercício dos direitos culturais segundo o Art. 215 da Constituição Federal; de estabelecer incentivos para produção de bens e valores culturais descrito no terceiro inciso do Art. 216, e a garantia de acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística como diz o quinto parágrafo do Art. 208. 

Este documento reflete as necessidades de artistas e profissionais da área de dança de Pernambuco, que se uniram para reivindicar seus direitos iniciando o Movimento Dança Recife, uma articulação em prol de políticas na área de dança.


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